Rodrigo Paz Pereira emergiu como a grande surpresa e o vencedor das eleições bolivianas de 2025, conquistando a Presidência após um segundo turno inesperado. Com sua vitória, o ciclo de comando do partido de esquerda MAS (Movimento ao Socialismo), liderado por Evo Morales, chega ao fim.
A trajetória de Paz, no entanto, é marcada pela ambiguidade política e por uma dependência de parte do eleitorado historicamente ligado ao MAS, o que dificulta a definição de seu rótulo ideológico.
A Ascensão Inesperada e as Raízes Políticas

Paz, que obteve pouco mais de 32% dos votos no primeiro turno (superando o empresário Samuel Doria Medina), assume o Palácio Quemado, repetindo o feito de seu pai, Jaime Paz Zamora (presidente entre 1989-1993).
- Exílio e Caráter Transnacional: Nascido no exílio, em Santiago de Compostela, na Espanha, durante um período de instabilidade na Bolívia, Paz teve uma criação em constante deslocamento. Embora isso lhe confira uma retórica internacional e habilidade em vários idiomas, também gera críticas por não ter crescido em solo boliviano.
- Carreira Local: Antes de mirar a Presidência, ele construiu sua carreira em Tarija, distrito tradicionalmente ligado à sua família, atuando como deputado (2002-2010), presidente do Conselho Municipal (2010-2015), prefeito (2015-2020) e senador (a partir de 2020).
- Ponto Frágil: Sua gestão como prefeito foi marcada por acusações não comprovadas de irregularidades em um projeto de ponte, apelidada de “Puente Millonario”.
Pragmatismo e a Influência do MAS

A vitória de Paz deve muito à sua capacidade de atrair eleitores desencantados com o MAS, em parte graças à figura de seu vice-presidente, o ex-policial Edman Lara.
- Vice-Presidente Populista: Lara, que ganhou notoriedade como denunciante de corrupção, fez uma campanha populista e defendeu bandeiras semelhantes às do MAS. O próprio Evo Morales reconheceu: “Paz subiu muito por causa de Lara, e Lara subiu muito porque está propondo os meus programas”.
- Definição Político-Econômica: Paz se autodefine como um “moderado pragmático” e apresentou a fórmula de “capitalismo para todos”. Ele promete um governo que tentará mesclar estímulos ao setor privado com a manutenção de políticas sociais (as políticas que Morales reivindica como suas).
- Sem Rupturas Drásticas: Ao contrário de seus opositores, que propunham um ajuste radical “ao estilo Milei”, Paz prometeu que não haverá rupturas abruptas nas políticas sociais.
Desafios e Ambiguidade

Paz assume o país em um momento de desequilíbrios macroeconômicos severos, incluindo reservas cambiais em queda, escassez de divisas, falta de gás e alta inflação.
- Testes de Governo: Seu principal desafio será derrubar subsídios sem gerar um choque social.
- Insegurança Programática: A ambiguidade de seu discurso, que busca conciliar crescimento com inclusão, é criticada por analistas por trazer insegurança a alguns setores.
- Negociação no Congresso: Paz terá de enfrentar um Congresso renovado que dará mais margem de manobra aos seus opositores, exigindo grande habilidade de negociação para viabilizar reformas.
Para seus eleitores, Paz representa a esperança de conciliar mudança e estabilidade, aproximando-se da população rural e andina que se sentia distante de outros candidatos.
