A aviação regional no Brasil passa por um momento de encolhimento, com o mercado agora concentrado nos voos da Azul Conecta, braço da Azul que atua no segmento. A situação se agravou pouco mais de dois meses após a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) encerrar as operações da Voepass, que anteriormente transportava cerca de 99,4 mil passageiros em julho do ano passado.
Cenário de Queda e Reestruturação

Segundo o último relatório da Anac, a Azul Conecta transportou apenas 5.208 passageiros em julho deste ano, uma queda de 34,6% em relação ao mesmo período de 2024, quando a Voepass ainda estava operando. A retração é reflexo dos desafios enfrentados pela empresa, que encerrou as operações em 14 cidades brasileiras no primeiro trimestre do ano. A companhia afirma que os ajustes em mais de 50 rotas, que incluem redução de frequência e até eliminação, se devem ao aumento dos custos operacionais, à alta do dólar e ao seu processo de reestruturação.
Em contraponto ao cenário de retração, a Abaeté Aviação, uma empresa menor do segmento, anunciou um reforço na malha aérea para a alta temporada (de dezembro a fevereiro de 2026). A companhia, que atua com rotas turísticas na Bahia (ligando Salvador a Morro de São Paulo e Boipeba), terá um aumento de 16% na oferta de assentos, impulsionado pelo crescimento do turismo internacional na região.
Governo Lança Programa para Revitalizar o Setor

Diante do cenário de retração, o Ministério de Portos e Aeroportos lançou, em junho, o programa AmpliAR, que busca fortalecer a aviação regional. A iniciativa, criada em parceria com o Tribunal de Contas da União (TCU), permitirá que concessionárias que já operam no setor assumam a gestão de aeroportos regionais deficitários.
Na primeira fase, 19 terminais nas regiões da Amazônia Legal e no Nordeste serão oferecidos. As concessionárias poderão disputá-los por meio de um processo simplificado, e a proposta vencedora será a que oferecer o maior desconto em relação ao preço mínimo estabelecido pelo governo. A abertura das propostas está prevista para novembro.
A Visão do Especialista: Solução Necessária, mas Não Suficiente

Para o especialista em aviação civil Adalberto Febeliano, os esforços do governo são necessários, mas não suficientes para resolver a crise. Segundo ele, o problema não se limita à falta de infraestrutura, mas a uma tendência global de encolhimento do setor regional, que enfrenta uma redução no número de fabricantes e na falta de aviões menores, de 30 lugares.
Febeliano afirma que uma forma de fortalecer a aviação regional no Brasil seria reduzir o nível de segurança exigido para voos do segmento, o que diminuiria os custos. Ele reconhece, no entanto, que esta é uma proposta controversa, pois “é muito difícil você dizer para as pessoas: ‘Você vai ter o voo, mas não vai ser um voo tão seguro quanto o das empresas comerciais’”.
