Dois anos após assumir a presidência da Argentina, o projeto ultraliberal de Javier Milei enfrenta um colapso que vai além da economia, atingindo a moral e a política. O discurso de “motosserra” e pureza ética ruiu, revelando um governo marcado pelo improviso, autoritarismo e uma crise social devastadora.
Escândalo e Ruína Moral do Discurso Anticorrupção

O momento mais simbólico do declínio de Milei foi a renúncia de seu principal aliado nas eleições legislativas, José Luis Espert, em meio a denúncias de que ele teria recebido US$ 200 mil de um empresário investigado por narcotráfico.
- Velha Política Vencida: O governo que prometia “varrer a velha política” acabou tragado por escândalos. A renúncia de Espert desmoralizou a narrativa de que o “libertarismo” seria imune ao clientelismo.
- Perda de Controle: Milei reagiu aceitando a renúncia sem explicações, mas perdeu o controle da agenda pública. O episódio se soma às derrotas no Congresso, que derrubou vetos e restabeleceu verbas para universidades e hospitais pediátricos.
O Preço Social da “Motosserra”: Um País Asfixiado

O prometido “choque de gestão” de Milei se traduziu em um choque de miséria. A inflação não recuou, o desemprego cresce e a pobreza atinge níveis comparáveis aos da crise de 2001.
- Cortes Seletivos: O governo aplicou cortes drásticos em setores essenciais (alimentação escolar, aposentadorias e universidades), enquanto preservou benefícios fiscais para grupos financeiros estrangeiros e o agronegócio exportador.
- Asfixia Econômica: A política do “não há dinheiro” se tornou um dogma cínico. A suposta “vitória fiscal” é uma ilusão contábil alcançada à custa da recessão: o consumo desabou, a arrecadação caiu, e a indústria opera com grande capacidade ociosa. O ajuste expôs o país à vulnerabilidade externa.
Autoritarismo, Isolamento e Dependência Externa

Incapaz de construir alianças, Milei recorre à governança por decretos, enfrentando o Congresso, as províncias e as ruas.
- Criminalização da Dissidência: A repressão policial contra greves e manifestações de professores e estudantes tornou-se rotina. O presidente que defendia a “liberdade” agora criminaliza a dissidência.
- Diplomacia de Submissão: Na política externa, Milei hostilizou parceiros como Brasil e China, atrelando-se à extrema-direita global. O isolamento se aprofundou com a aceitação submissa do pacote de “ajuda” de US$ 20 bilhões de Donald Trump, condicionado à compra de equipamentos militares e à abertura de setores estratégicos a empresas norte-americanas. O acordo é visto como um ato que simboliza a perda de soberania.
- Alerta do FMI: O Fundo Monetário Internacional (FMI), que inicialmente saudou a “audácia” de Milei em 2024, mudou o tom em 2025, passando a alertar para o risco de colapso social e político devido à explosão da pobreza.
As eleições legislativas de outubro se aproximam, configurando o primeiro veredito popular sobre o governo. O experimento ultraliberal na Argentina, que prometeu revolução, está se configurando como um projeto de destruição do Estado e da cidadania, revelando-se um populismo financeiro sem compaixão.
